Canetas emagrecedoras exigem atenção redobrada em pacientes autoimunes

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Por beatriz
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O uso de medicamentos injetáveis para perda de peso, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras” — como a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro) — tem crescido de forma acelerada no Brasil. Indicados para obesidade e diabetes tipo 2, esses fármacos passaram a fazer parte da rotina de muitos pacientes. Mas, entre pessoas que convivem com doenças autoimunes, como artrite reumatoide, lúpus, espondiloartrites e doenças inflamatórias intestinais (DII), surgem dúvidas importantes: há risco de interação com imunobiológicos? Esses medicamentos podem piorar a doença? Os efeitos gastrointestinais interferem no tratamento?

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que, embora não haja contraindicação formal, o uso exige acompanhamento médico criterioso.

Não há contraindicação total, mas pode alterar a absorção de remédios

De acordo com o reumatologista Dr. Flávio Calil Petean, professor da USP de Ribeirão Preto e membro da Sociedade Paulista de Reumatologia, essas medicações não apresentam interação direta com os fármacos utilizados no tratamento das doenças reumáticas autoimunes. “Essas canetas não interferem com medicamentos como metotrexato, leflunomida, imunobiológicos ou as pequenas moléculas, como baricitinibe, upadacitinibe e tofacitinibe. Portanto, não há contraindicação formal por interação medicamentosa”, afirma.

A gastroenterologista e professora do ambulatório multidisciplinar de doenças inflamatórias intestinais da Universidade do Vale do Itajaí, Dra. Munique Mello, explica que a mesma lógica vale para as doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. “O problema não é uma ‘briga’ entre os remédios, mas o efeito que esses medicamentos provocam na digestão, que fica mais lenta. Isso pode interferir na absorção de medicamentos orais importantes para o controle da doença.”

Esses medicamentos atuam reduzindo a motilidade do trato gastrointestinal. Na prática, isso significa que o processo digestivo, que normalmente leva cerca de duas horas, pode se estender por até seis. Os efeitos mais comuns são azia, sensação de empanzinamento, náusea, constipação ou diarreia. “Se o paciente apresenta vômitos frequentes, diarreia importante ou passa a se alimentar muito pouco, pode haver prejuízo na absorção de medicamentos essenciais”, alerta a médica.

Como essas medicações atuam no organismo

As chamadas “canetas emagrecedoras” são, em sua maioria, agonistas do GLP-1, como a semaglutida, ou agonistas duais de GIP/GLP-1, como a tirzepatida, e atuam em diferentes frentes:

  • Aumentam a liberação de insulina quando a glicose está alta;

  • Reduzem o glucagon (hormônio do pâncreas que aumenta a glicose no sangue);

  • Retardam o esvaziamento gástrico;

  • Atuam nos centros de fome e saciedade no cérebro;

  • Apresentam efeitos metabólicos e anti-inflamatórios que podem ser benéficos em pacientes com obesidade e inflamação crônica.

Para o médico cirurgião e pós-graduado em Nutrologia, Dr. Jorge Camacho, essas medicações são frequentemente tratadas nas redes sociais como soluções rápidas, quando, na prática, exigem acompanhamento contínuo. “São medicamentos de uso crônico, que mexem com peso, glicemia, sistema digestivo e possivelmente o sistema imune. A titulação lenta da dose é fundamental para reduzir efeitos adversos. O que vemos nas redes é o oposto disso”, conta.

Em doenças autoimunes, todo cuidado é pouco

Dr. Jorge Camacho chama atenção para um aspecto menos discutido: o contexto clínico de quem vive com uma doença autoimune já é, por definição, mais complexo. Segundo ele, estudos recentes mostram um cenário ainda misto sobre a relação dos agonistas de GLP-1 com doenças autoimunes. “Há pesquisas sugerindo associação com maior risco de algumas doenças, como lúpus, colite ulcerativa e diabetes tipo 1, enquanto em outras parece haver efeito protetor, como no hipotireoidismo autoimune. Isso mostra que ainda não entendemos totalmente essa interação com o sistema imune.”

Ao mesmo tempo, ele destaca que, em estudos com pacientes autoimunes com diabetes tipo 2, o uso desses medicamentos esteve associado à redução de mortalidade e de eventos cardiovasculares em comparação a outros medicamentos, o que é bastante positivo.

Perda de peso pode ajudar nos sintomas das doenças autoimunes

Apesar dos cuidados, os especialistas destacam um ponto importante: a perda de peso pode ser uma aliada relevante no controle das doenças autoimunes. “O peso tem impacto direto em várias doenças reumáticas, tanto pela sobrecarga nas articulações quanto pelo risco cardiovascular, especialmente em pacientes com lúpus e espondiloartrites. A perda de peso pode contribuir para o controle da doença”, afirma o reumatologista Dr. Petean.

Já para pacientes com DII que convivem com sobrepeso ou obesidade, a perda de peso e a melhora metabólica podem trazer benefícios indiretos, como mais disposição, melhor qualidade de vida e possível redução da inflamação. “Existem estudos em andamento que vão avaliar o efeito real dessas medicações no tratamento das doenças inflamatórias intestinais”, explica a gastroenterologista.

Cuidado com as versões “genéricas”

Nas redes sociais e na internet, tem se tornado frequente a divulgação de versões mais baratas das chamadas canetas emagrecedoras, produzidas por farmácias de manipulação. No entanto, essa alternativa pode representar um risco significativo à saúde.

Ao optar por versões manipuladas de semaglutida ou tirzepatida, o paciente abre mão de um conjunto de controles de qualidade presentes nos medicamentos industrializados, que passam por testes rigorosos de pureza, estabilidade, padronização de dose e farmacovigilância. Como alerta o médico, agências como FDA e Anvisa já relataram casos de produtos manipulados com impurezas, alteração de cor, presença de bactérias e até substâncias que não correspondiam ao fármaco prometido.

Também há risco de erros de diluição, superdose ou subdose, além de problemas no armazenamento, já que essas moléculas são sensíveis à luz, à temperatura e ao manuseio inadequado. Nesse contexto, para pacientes que já convivem com doenças crônicas, tende a ser mais seguro priorizar medicamentos com evidência científica, rastreabilidade e monitorização adequada.

Acompanhamento médico é fundamental

Ter uma doença autoimune não significa, por si só, maior risco de eventos graves. O problema, segundo os especialistas, é o uso sem avaliação prévia. Histórico de pancreatite, problemas na vesícula, tendência à desidratação, uso de múltiplos medicamentos, sarcopenia, doença renal e condições clínicas associadas precisam ser considerados antes da prescrição das “canetas emagrecedoras”.

“Quando existe acompanhamento médico, é possível avaliar riscos, ajustar doses e garantir que o tratamento continue seguro e eficaz. O mais importante é olhar para o paciente como um todo, e não apenas para o peso ou para um sintoma isolado”, finaliza Dra. Munique.

O acompanhamento médico assim como a mudança no estilo de vida são essenciais para os pacientes. “Os estudos indicam que não se trata de utilizar as canetas por ciclos curtos: a interrupção abrupta após grande perda de peso costuma levar ao reganho se não houver plano consistente de alimentação, exercício e acompanhamento”, destaca o Dr. Jorge. 

Beatriz Libonati


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