Brasil terá 1ª fábrica do mundo para tratar queimaduras com pele de tilápia.

Priscila Torres
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Foianesi afirma que a unidade de Jaguaribara deverá produzir inicialmente 4.500 curativos por dia, com capacidade para chegar a 13 mil no segundo ano de operação. 

Ele também destaca o potencial da tecnologia para reduzir os custos do SUS (Sistema Único de Saúde) com o tratamento de pacientes queimados. 

“O impacto para os cofres públicos será uma redução de 50,5% do gasto atual com os tratamentos convencionais. Esse é um dado muito importante”, destaca Foianesi. 

Ainda segundo o sócio-fundador, o resultado é possível porque o curativo é produzido a partir de um material que normalmente seria descartado, a pele da tilápia, o que contribui para reduzir significativamente o custo do produto. 

De acordo com o Ministério da Saúde, o SUS teve 32,9 mil internações por queimaduras em 2025, com um gasto de R$ 92,5 milhões em tratamentos. Neste ano, até julho, foram contabilizadas 16 mil internações pelo mesmo motivo, com um gasto de R$ 46,8 milhões. 

Por que o local? 

A escolha de Jaguaribara para sediar a fábrica está relacionada à posição estratégica na cadeia produtiva da tilápia. O município é o maior polo produtor do Ceará, está às margens do Açude Castanhão e fica a cerca de 130 quilômetros de Orós, segundo maior produtor do estado. 

A iniciativa também deve movimentar a economia da região e gerar cerca de 200 postos de empregos diretos e 800 indiretos. 

Ao UOL, Fábio Feijó, secretário do Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará, afirma que o investimento na primeira etapa do projeto supera R$ 52 milhões, entre recursos públicos e privados. 

Segundo ele, a expectativa é de que o empreendimento alcance faturamento de R$ 58 milhões já no primeiro ano comercial e ultrapasse R$ 130 milhões anuais a partir do terceiro ano. 

Exportação 

Além de atender ao SUS, Feijó afirma também que a iniciativa também mira o mercado internacional, com a expectativa de destinar cerca de 50% da produção de curativos à exportação. 

Bruno Braga, diretor de negócios do grupo Biotec, diz que já recebeu pedidos de compra de outros países. 

“Nós já temos cartas de intenção de compra hoje do México, de Portugal e da Turquia. Outros países já estão procurando a gente também para conversar, mas o nosso foco é atender primeiro o SUS”, garante. 

Antes de ser comercializado, porém, o produto terá de ser aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Não há prazo determinado para isso. 

UFC fica com patente 

Carlos Paier, do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFC e pesquisador líder da descoberta, explica que a patente do produto permanece pertencendo à universidade, mesmo após o licenciamento para a empresa privada. 

A exploração comercial da tecnologia prevê o pagamento de royalties à instituição, que terá direito a parte dos resultados gerados pelo produto. 

“A UFC vai usar esse dinheiro para fortalecer a sua pesquisa e a formação de alunos. Vamos continuar as pesquisas, inclusive com a própria pele da tilápia, desenvolvendo produtos novos, fazendo descobertas científicas novas e quem sabe resolvendo novos problemas na saúde. É um ciclo virtuoso, é maravilhoso isso”, enfatiza. 

Perna com enxerto de pele de tilápia para tratar queimaduras Imagem: UFC/Divulgação 

Como funciona o tratamento de queimaduras 

O professor Paier explica que o tratamento com pele de tilápia é atualmente indicado para queimaduras de segundo grau, que atingem as camadas mais profundas da pele e exigem atendimento hospitalar. Antes da aplicação do curativo, a ferida é limpa e os tecidos necrosados são retirados. 

A descoberta da tecnologia pelos pesquisadores passou por uma série de estudos clínicos antes de chegar à produção. Os primeiros testes em humanos começaram em 2015 com a avaliação da segurança da pele de tilápia. 

Para ser transformada em um curativo biológico, a pele passa por um processo de liofilização, que é a retirada da água para reidratação em soro fisiológico. “Depois, o material é colocado sobre a queimadura, ultrapassando os limites da ferida para compensar a contração que ocorre durante o tratamento”, conta. 

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará durante trabalho com pele de tilápia em laboratório Imagem: Divulgação 

Após 16 a 18 horas, a pele de tilápia costuma aderir à ferida e permanecer ali durante o processo de regeneração, que pode levar de 15 a 21 dias. 

Em alguns casos, são necessárias apenas uma ou duas trocas de curativo durante a recuperação. Para Paier, essa é uma das principais diferenças em relação ao tratamento tradicional, que exige trocas frequentes de curativo e pode provocar dor. 

“Ao final da regeneração, a pele de tilápia pode se desprender sozinha. Quando isso não acontece, o profissional de saúde a remove com auxílio de soro fisiológico”, completa ele. 

Apesar de o curativo de pele de tilápia ser destaque no tratamento de queimaduras, Paier conta que a tecnologia também é utilizada em cirurgias de reconstrução vaginal. 

O procedimento já apresentou bons resultados em mulheres que tiveram o canal vaginal fechado após radioterapia contra o câncer ou que nasceram sem o canal vaginal ou com formação incompleta, por exemplo. 

Reportagem 

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. 

Fonte: UOL. 


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