EULAR 2026: Novos insights no manejo clínico da Gota

Priscila Torres
8 Leitura mínima

EULAR – A Aliança Europeia das Associações de Reumatologia – realizou seu Congresso anual de 2026 em Londres, onde a gota ocupou posição de destaque. As diretrizes atuais recomendam terapia redutora de urato (ULT) ao longo da vida, dentro de uma estratégia de tratamento com meta definida (treat-to-target – T2T), para manter a remissão, embora exista alguma margem para discutir a redução gradual ou a descontinuação quando a remissão é alcançada.¹⁻³ No entanto, na gota, a estratégia T2T baseia-se no ajuste de dose orientado por medições seriadas do ácido úrico sérico.² Novos dados apresentados exploraram as taxas de remissão com ULT e a continuidade da estratégia T2T em comparação com a descontinuação, enquanto outros grupos concentraram-se nas comorbidades – especificamente na associação entre depósitos regionais de gordura corporal e composição muscular com o risco de desenvolver gota e artrite reumatoide.

Apesar de sua inclusão nas diretrizes, faltam evidências da superioridade da manutenção de uma estratégia T2T com ULT durante a remissão. Na prática clínica, a adesão à ULT frequentemente é baixa e a descontinuação é comum. No Congresso Anual da EULAR de 2026, realizado em Londres, foram apresentados novos dados de um estudo aberto, randomizado e de superioridade, conduzido em nove clínicas de reumatologia nos Países Baixos, avaliando se a continuação da estratégia T2T com ULT era superior à tentativa de descontinuação da ULT para manter a remissão em 309 pacientes com gota.

Os resultados mostraram que, durante o período final de acompanhamento de seis meses (de um total de 24 meses), uma proporção substancial dos pacientes permaneceu sem crises após a interrupção da ULT: os critérios de remissão foram alcançados por 79,2% dos participantes do grupo que continuou a estratégia T2T com ULT, em comparação com 62,9% do grupo que tentou interromper a ULT. Os pacientes que continuaram a ULT permaneceram livres de crises por mais tempo ao longo dos 24 meses, com incidência acumulada de crises de 12,3%, em comparação com 31,8% no grupo que tentou interromper a terapia.

No grupo de descontinuação, 23% reiniciaram a ULT após uma mediana de 392 dias, e mais participantes necessitaram de medicação anti-inflamatória em comparação com o grupo que continuou a estratégia T2T. Observou-se ainda um benefício modesto na função renal associado à continuidade da ULT durante a remissão.

Apresentando o trabalho, Iris Rose Peeters afirmou:

“Esses achados apoiam as recomendações atuais de manter a ULT durante a remissão em nível populacional. Os resultados contribuirão para discussões de tomada de decisão compartilhada. No entanto, pesquisas futuras precisarão explorar desfechos de longo prazo e segurança – bem como preditores de sucesso na descontinuação – considerando que uma proporção substancial dos pacientes permaneceu em remissão, além de avaliar a relação custo-efetividade.”

A obesidade é um importante fator de risco para gota, aumenta o risco de artrite reumatoide e é um dos principais impulsionadores de comorbidades, incluindo diabetes tipo 2 (DM2) e doença arterial coronariana (DAC) – mas os mecanismos permanecem incompletamente compreendidos. Mais conhecimento nessa área pode ajudar a prever melhor a doença e orientar o tratamento.

Um pôster apresentado por Lyn D. Ferguson e colaboradores utilizou exames de ressonância magnética do UK Biobank para explorar diferenças na distribuição da gordura corporal e na composição muscular, investigando se isso poderia fornecer informações sobre o papel da obesidade no desenvolvimento da gota, da artrite reumatoide e das comorbidades cardiometabólicas associadas.

As principais medidas foram comparadas entre 281 pessoas com gota, 308 com artrite reumatoide e controles sem doença metabólica, pareados por idade, sexo e índice de massa corporal. Os resultados mostraram que pessoas com gota apresentavam uma distribuição de gordura corporal metabolicamente desfavorável – com maiores quantidades de gordura visceral, hepática e intramuscular – enquanto aquelas com artrite reumatoide apresentavam maior infiltração de gordura no músculo.

Esses padrões desfavoráveis de distribuição de gordura corporal foram associados a maior predisposição para diabetes tipo 2 e doença arterial coronariana em pacientes com gota e artrite reumatoide, quando comparados aos controles pareados, e justificam estudos adicionais como possíveis mecanismos para maior suscetibilidade à doença cardiometabólica em doenças reumáticas.

Em uma análise separada de indivíduos sem gota ou artrite reumatoide no início do estudo, os autores também demonstraram que o armazenamento de maior quantidade de gordura visceral, hepática e intramuscular, e menor quantidade de gordura subcutânea, estava associado a maior risco de desenvolvimento de gota. O acúmulo de gordura no músculo associado a baixo volume muscular também esteve relacionado a maior risco de artrite reumatoide.

O manejo eficaz do peso corporal e o incentivo ao aumento da atividade física para melhorar a qualidade muscular devem ser componentes integrais da prevenção e do tratamento da gota e da artrite reumatoide. Isso está em consonância com as recomendações da EULAR, que sugerem a manutenção de um peso saudável e destacam os benefícios da prática de exercícios em doenças reumáticas e musculoesqueléticas – incluindo gota e artrite reumatoide – além de recomendar que pessoas com sobrepeso ou obesidade trabalhem com profissionais de saúde para alcançar uma perda de peso controlada e intencional, uma vez que isso pode beneficiar os desfechos das doenças reumáticas.⁴


Fonte

Peeters IR et al. Continuação da estratégia treat-to-target com terapia redutora de urato versus tentativa de descontinuação da terapia em pacientes com gota em remissão (GO TEST Finale): ensaio pragmático aberto, randomizado e de superioridade. Apresentado na EULAR 2026; OP0001.

Ferguson LD et al. Gota e artrite reumatoide estão associadas a distribuição desfavorável da gordura corporal e composição muscular. Apresentado na EULAR 2026; POS0803.


Sobre a EULAR

A EULAR é a organização europeia de referência que representa sociedades científicas, associações de profissionais de saúde e organizações de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas (RMDs). A EULAR tem como objetivo reduzir o impacto das RMDs nos indivíduos e na sociedade, bem como melhorar os tratamentos, a prevenção e a reabilitação das RMDs.

Para isso, a EULAR promove excelência em educação e pesquisa em reumatologia, incentiva a tradução dos avanços científicos para o cuidado diário e defende o reconhecimento das necessidades das pessoas que vivem com RMDs pelas instituições da União Europeia. 

Fonte: EULAR Press Release

*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.


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