Falta de medicamentos nas farmácias de alto custo expõe crise no acesso a tratamentos no SUS no início de 2026

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Pacientes com doenças crônicas, raras e oncológicas enfrentam interrupções severas nos tratamentos. Biored Brasil cobra Ministério da Saúde após registrar mais de 33 mil relatos de falta de medicamentos e aguardar respostas desde janeiro de 2026

O primeiro trimestre de 2026 revelou um cenário alarmante para os pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). O Movimento Medicamento no Tempo Certo (#MTC) registrou 33.104 relatos de irregularidades e desabastecimento envolvendo 58 componentes da assistência farmacêutica. O número representa um agravamento crítico no acesso, deixando pacientes com doenças crônicas, imunomediadas, raras e oncológicas à deriva.

A crise é aprofundada pelo silêncio governamental. Desde a primeira semana de janeiro de 2026, a Biored Brasil aguarda informações do Departamento de Assistência Farmacêutica (DAF/MS) sobre a falta de medicamentos do componente especializado. Todos os fármacos em falta estão garantidos nas políticas públicas por meio dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDTs) do Ministério da Saúde. Parte substancial dos itens em falta integra o próprio Complexo Econômico-Industrial da Saúde, criado justamente para garantir a soberania nacional e o abastecimento interno.

Diálogo sem Respostas Práticas

Em 8 de janeiro, a Biored Brasil solicitou esclarecimentos oficiais. No dia 27 de março de 2026, uma reunião foi realizada entre a nova diretoria do DAF/MS e diversos representantes de sociedades médicas e associações de pacientes. Durante o encontro, foram expostos os dados alarmantes: 32% dos pacientes enfrentam interrupções superiores a 60 dias. Geograficamente, o Estado de São Paulo lidera as queixas, seguido por Minas Gerais e Ceará.

Priscila Torres, atual conselheira nacional de saúde, com Dr. Nélio Cezar de Aquino, diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos (DAF/MS).

Apesar da gravidade dos relatos — que incluem progressão de doenças, risco de falência renal e cirurgias mutilantes —, até o presente momento, o DAF/MS não emitiu respostas ou diretrizes para orientar a navegação dos pacientes. Em abril, durante a reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde, os documentos com pedidos de informações e o relatório completo foram entregues em mãos ao diretor do DAF, Dr. Nélio Cezar de Aquino.

O Mapa do Desabastecimento: Impacto por Especialidade

Abaixo, o raio-x das áreas mais afetadas pelas falhas no fornecimento, segundo o relatório do 1º trimestre de 2026:

Especialidade Situação Clínica e Gargalos Principais Medicamentos em Falta
Doença de Fabry Migração forçada por falta da enzima Beta-agalsidase  tem causado piora severa na Doença de Fabry (evolução para diálise e fila de transplante). Medicamentos aprovados há anos. Beta-agalsidase para doença de fabry. 
Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) A demora na disponibilização do ravulizumabe no SUS expõe pacientes com HPN a riscos evitáveis e graves, especialmente eventos trombóticos potencialmente fatais, além de comprometer a função de múltiplos órgãos e a qualidade de vida.  Ravulizumabe foi incorporado no SUS para HPN e há mais de 2 anos aguarda publicação do PCDT para fornecimento.
Oncologia Atraso de até 4.185 dias na atualização de diretrizes (Câncer de Pulmão). Tecnologias aprovadas não chegam aos pacientes por falta de pactuação e fluxo interfederativo. Durvalumabe, Olaparibe, Erlotinibe, Gefitinibe
Gastroenterologia PCDT de Doença de Crohn desatualizado na prática desde 2017. Pacientes dependem de terapias antigas, levando a agravamentos, nutrição parenteral e ostomias definitivas. Ustequinumabe, Vedolizumabe, Infliximabe SC
Dermatologia Falta crônica de tratamentos únicos para ictioses congênitas em crianças e atrasos massivos na entrega de biológicos para Psoríase e Dermatite Atópica. Acitretina, Secuquinumabe, Dupilumabe
Reumatologia Faltas constantes de tratamentos de base forçam a migração precoce para linhas biológicas (mais caras ao SUS). O Abatacepte sofre desabastecimento histórico de 5 anos, teve a população alvo redefinida no PCDT e há mais de 1 ano aguarda regularização no fornecimento. Falta severa de medicamentos de PDP: Adalimumabe,Golimumabe, Leflunomida,Rituximabe, Upadacitinibe

Sem previsibilidade de regularização, entidades médicas e associações de pacientes reiteram o pedido por transparência e pela criação de estoques de segurança, evitando que burocracias administrativas custem a vida de milhares de brasileiros. 

A Biored Brasil alerta que a ausência de informações oficiais compromete não apenas o acesso ao tratamento, mas também o direito à saúde e à vida. A falta de previsibilidade impede que pacientes e profissionais se organizem, aumenta a judicialização e sobrecarrega ainda mais o sistema público de saúde.

Diante deste cenário, a Biored Brasil e o Movimento Medicamento no Tempo Certo reforçam a necessidade urgente de:

  • Transparência ativa sobre o abastecimento nacional de medicamentos do CEAF;
  • Divulgação de cronogramas de compra, distribuição e regularização;
  • Comunicação prévia sobre desabastecimentos e problemas produtivos;
  • Implementação efetiva dos PCDTs já aprovados;
  • Criação de estratégias estruturantes para evitar interrupções de tratamento.

O acesso ao medicamento no tempo certo não é apenas uma demanda da sociedade civil — é um direito garantido pelas políticas públicas de saúde e um compromisso do Estado brasileiro com a vida de milhões de cidadãos.Confira na íntegra os documentos entregues ao DAF/MS e o cenário de desabastecimento de medicamentos nas farmácias de alto custo dos SUS:

Posição Medicamento Grupo da Assistência Farmacêutica Financiamento Total 1º trimestre
1 Leflunomida Grupo 1A União 9020
2 Golimumabe Grupo 1A União 1409
3 Rituximabe Grupo 1A União 1396
4 Risanquizumabe Grupo 1A União 1357
5 Ustequinumabe Grupo 1A União 1065
6 Secuquinumabe Grupo 1A União 1059
7 Adalimumabe Grupo 1A União 1044
8 Upadacitinibe Grupo 1A União 937
9 Insulina análoga (prolongada) Grupo 1A União 805
10 Sildenafila Grupo 1A União 789
11 Bosentana Grupo 1B União 759
12 Metotrexato (comp) Grupo 1A União 720
13 Insulina análoga (rápida) Grupo 1A União 603
14 Baricitinibe Grupo 1A União 554
15 Sulfassalazina Grupo 2 Estados 536
16 Ambrisentana Grupo 1B União 520
17 Infliximabe 100mg Grupo 1A União 517
18 Tocilizumabe Grupo 1A União 505
19 Mesalazina (supositórios) Grupo 2 Estados 493
20 Micofenolato de mofetila Grupo 1A União 486
21 Mesalazina (comp) Grupo 2 Estados 483
22 Teriflunomida Grupo 1A União 459
23 Fingolimode Grupo 1A União 394
24 Fumarato de Dimetila Grupo 1A União 376
25 Risperidona 2 mg Grupo 1B União 367
26 Gabapentina Grupo 2 Estados 340
27 Natalizumabe Grupo 1A União 333
28 Naproxeno Grupo 2 Estados 318
29 Somatropina Grupo 1A União 314
30 Tofacitinibe Grupo 1A União 306
31 Eltrombopague Olamina Grupo 1B União 287
32 Acetato de Glatirâmer Grupo 1A União 285
33 Beta-agalsidase Grupo 1A União 284
34 Omeprazol Básico Compartilhada 276
35 Acitretina Grupo 1B União 265
36 Ácido Fólico Básico Compartilhada 260
37 Certolizumabe pegol Grupo 1A União 257
38 Betainterferon Grupo 1A União 254
39 Vedolizumabe Grupo 1A União 214
40 Alentuzumabe Grupo 1A União 199
41 Etanercepte 50 mg Grupo 1A União 183
42 Metotrexato (injetável) Grupo 1A União 177
43 Omalizumabe Grupo 1B União 167
44 Donepezila Grupo 1A União 161
45 Dapagliflozina 10 mg Grupo 2 Estados 153
46 Abatacepte SC Grupo 1A União 150
47 Etanercepte 25 mg Grupo 1A União 147
48 Riluzol Grupo 1A União 123
49 Alfaglicosidase Grupo 1A União 119
50 Cladribina Grupo 1A União 113
51 Imiglucerase Grupo 1A União 110
52 Latanoprosta Grupo 1A União 107
53 Enoxaparina Grupo 1A União 107
54 olanzapina Grupo 1A União 98
55 Imunoglobulina humana Grupo 1A/B União 96
56 Natalizumabe Grupo 1A União 96
57 romosozumabe Grupo 1A União 81
58 Ziprasidona Grupo 1A União 71
Total de relatos no 1º trimestre da Assistência Farmacêutica de 2026 33104

Participaram da reunião com o DAF/MS, realizada no dia 27 de março de 2026: 

  • Priscila Torres: Conselheira Nacional de Saúde – Biored Brasil I Movimento Medicamento no Tempo Certo Contato: (11) 94758-4001 – Email: bioredbrasil@gmail.com
  • Ana Lucia Paduello – Conselheira nacional de saúde pela Associação Brasileira Superando o Lpus
  • Gustavo San Martin – Presidente da AME/CDD
  • Maria Cecília Jorge Branco Martiniano de Oliveira – Presidente da AFAG
  • Dr.Gustavo Braga Hallais Franca – Sociedade Brasileira de Reumatologia e Sociedade Mineira de Reumatologia
  • Dr. André Shinjo Hayata – Coordenador da Comissão de Políticas Públicas da Sociedade Brasileira de Reumatologia,
  • Dra. Sandra Marques e Silva – Médica cardiologista, Hospital de Base – DF, representante da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do grupo de doenças raras
  • Dra. Marta Machado Brenner – Presidente da ABCD Chron
  • Shirley de Fátima – presidente da Psorierj e Dra. Paula (SBD/SBD-RJ),
  • Juliana Lima dos Santos – Assistente Administrativa do Grupar BR/Biored Brasil
  • Julia Assis – Presidente da ALEMDII – Associação do Leste Mineiro de Doenças Inflamatórias Intestinais, e coordenadora no GRUPAR BR – Biored Brasil
MTC - 1º Trimestre de 2026

 

Confira as solicitações da Biored Brasil para o Departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde que aguardam esclarecimentos desde janeiro de 2026.

Fabry_Min_Saude_sociedades cientificas Biored Solicitacao ao DAF abril de 2026

 


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