Equidade deve deixar de ser princípio abstrato e entrar no método da ATS, defendem especialistas na HTAi 2026
A equidade no acesso às tecnologias em saúde foi tratada como um dos temas centrais da Avaliação de Tecnologias em Saúde durante o Congresso HTAi 2026 — Health Technology Assessment international, realizado entre os dias 6 e 10 de junho de 2026, em Istambul, na Turquia. No painel “Equity In HTA: Regional Experiences And Approaches To Measuring Impact”, especialistas da Argentina, do Brasil e do Reino Unido discutiram como os processos de ATS podem medir, antecipar e reduzir desigualdades, indo além da análise tradicional de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário.
A sessão integrou a trilha Equity In HTA e reuniu Santiago Hasdeu, da Argentina; Luciene Fontes Schluckebier Bonan, diretora da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), do Brasil; Hugh McGuire, do NICE, do Reino Unido; e Alexandre Lemgruber, que conduziu o painel. A proposta foi discutir a equidade não apenas como valor ético, mas como elemento técnico essencial para que decisões em saúde produzam impacto social mais justo.
Ao abrir a discussão, Alexandre Lemgruber apresentou o painel como uma oportunidade de analisar experiências regionais e abordagens capazes de medir o impacto da equidade nas decisões de ATS. O debate partiu de uma pergunta central: quando uma tecnologia é incorporada, quem de fato consegue acessá-la?
Na apresentação sobre a experiência argentina, Santiago Hasdeu destacou que a equidade deve ocupar lugar prioritário na ATS, especialmente nas Américas, região marcada por profundas desigualdades sociais e econômicas. Para ele, não basta avaliar se uma tecnologia é eficaz, segura e custo-efetiva. É preciso observar se ela será acessível para diferentes grupos populacionais, considerando renda, território, escolaridade, cobertura de saúde, raça, etnia, gênero e outras condições sociais que interferem no acesso real ao cuidado.
Hasdeu diferenciou a equidade horizontal — tratar igualmente pessoas em condições semelhantes — da equidade vertical, que exige respostas distintas para grupos com necessidades diferentes. A partir de exemplos da Argentina, mostrou como a ATS pode orientar decisões concretas para reduzir barreiras. Entre os casos apresentados, citou a ampliação de serviços de mamografia para áreas mais vulneráveis, estratégias de rastreamento de câncer colorretal com busca ativa em bairros de maior risco social e a criação de um serviço público de transplante renal para ampliar o acesso de pacientes que dependiam exclusivamente do sistema público.
O especialista também alertou que novas tecnologias, quando chegam primeiro às populações com maior renda, maior escolaridade e melhor acesso aos serviços, podem ampliar desigualdades já existentes. Nesse sentido, defendeu que a ATS deve avaliar não apenas o potencial clínico de uma inovação, mas também sua capacidade de reduzir ou agravar lacunas de acesso.
A experiência brasileira foi apresentada por Luciene Fontes Schluckebier Bonan, diretora da Conitec, vinculada ao Ministério da Saúde. Ela afirmou que, em um país de dimensões continentais como o Brasil, a cobertura universal e um processo robusto de ATS são fundamentais, mas não são suficientes para garantir acesso igualitário. Segundo Bonan, a incorporação de uma tecnologia no SUS é apenas o início de um percurso que depende da implementação local, da infraestrutura dos serviços, da capacidade diagnóstica, da logística de distribuição e da organização do cuidado nos territórios.
Luciene Bonan destacou os avanços brasileiros na participação social, incluindo consultas públicas, relatórios em linguagem acessível, perspectiva do paciente e a presença da sociedade civil no processo deliberativo da Conitec. A diretora também apresentou dados que mostram o crescimento do acesso a medicamentos de alto custo no SUS e a melhoria na qualidade das informações disponíveis, incluindo o preenchimento de dados de raça/cor.
Apesar dos avanços, a apresentação evidenciou desigualdades persistentes. Pessoas brancas e moradores de regiões economicamente mais desenvolvidas aparecem com maior representação no acesso a medicamentos de alto custo. Bonan também ressaltou que, em um país com mais de 5.500 municípios, a existência de cerca de 200 farmácias especializadas para dispensação desses medicamentos revela um desafio territorial importante. Para a diretora da Conitec, discutir equidade em ATS exige olhar para além da aprovação da tecnologia e compreender como ela chegará, de fato, ao paciente.
A apresentação brasileira também abordou o impacto da forma de administração das tecnologias. No caso de doenças como a atrofia muscular espinhal, por exemplo, alternativas de administração oral podem reduzir barreiras quando comparadas a tratamentos que exigem aplicação intratecal em centros especializados. A escolha tecnológica, portanto, pode influenciar diretamente a equidade de acesso.
Representando a experiência do Reino Unido, Hugh McGuire, do NICE — National Institute for Health and Care Excellence, apresentou como a agência britânica vem incorporando a redução das desigualdades em seus processos. Segundo ele, o compromisso com a equidade faz parte dos princípios institucionais do NICE e está presente em diferentes etapas da avaliação, desde a definição do escopo até a análise dos comitês e a consulta pública.
McGuire explicou que o NICE busca identificar barreiras de acesso e considerar grupos mais vulneráveis nas recomendações. Entre as ferramentas discutidas, esteve a análise de distribuição de custo-efetividade, abordagem que permite avaliar não apenas o benefício médio de uma tecnologia, mas como esses benefícios e custos se distribuem entre diferentes grupos populacionais. A proposta é tornar mais visível quem ganha, quem perde e quais desigualdades podem ser reduzidas ou ampliadas a partir de uma decisão.
Durante o debate com o público, participantes levantaram questões sobre a necessidade de desagregar dados para avaliar desigualdades, os riscos de aumento da incerteza nos modelos econômicos e o desafio de priorizar tecnologias que tenham maior potencial de reduzir iniquidades. Os painelistas reconheceram que dados quantitativos são importantes, mas defenderam o uso de métodos mistos, com apoio das ciências sociais, participação qualificada de pacientes e deliberação transparente.
Outro ponto discutido foi o fato de que muitas avaliações se concentram em tecnologias de alto custo, enquanto intervenções de saúde pública, atenção primária, prevenção, diagnóstico e vacinação também podem ter grande impacto na equidade. Para os especialistas, as agências de ATS precisam aprimorar seus critérios de priorização, considerando não apenas o peso da doença e o impacto econômico, mas também o potencial de uma tecnologia ou intervenção para reduzir desigualdades.
Ao final, o painel deixou uma mensagem clara: a ATS não pode resolver sozinha os determinantes sociais da saúde, mas pode contribuir para decisões mais justas quando incorpora a equidade como parte estruturante do método. Isso significa perguntar, desde o início, quem será beneficiado, quem poderá ficar de fora e quais ações serão necessárias para que a inovação em saúde não aprofunde desigualdades já existentes.
A discussão realizada em Istambul reforçou que o futuro da ATS passa por avaliações mais sensíveis ao território, à diversidade populacional e à realidade dos sistemas de saúde. Em um cenário global de pressão orçamentária, avanço tecnológico acelerado e aumento das expectativas por transparência, a equidade deixa de ser apenas um princípio orientador e passa a ser uma exigência técnica para decisões sustentáveis, legítimas e socialmente responsáveis.
Sobre a HTAi
A Health Technology Assessment international (HTAi) é uma sociedade científica e profissional global dedicada ao fortalecimento da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). A organização reúne pesquisadores, agências de ATS, gestores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, indústria, pacientes e cidadãos, promovendo a troca internacional de conhecimento e experiências para apoiar decisões em saúde baseadas em evidências, com foco em inovação, sustentabilidade, equidade e impacto na vida das pessoas.
Programa oficial do HTAi 2026:
https://htai.eventsair.com/htai-2026-istanbul-annual-meeting/program-agenda
Declaração de transparência: Priscila Torres, jornalista, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR, e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do HTAi 2026, em Istambul, a convite da Sun Pharma Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.
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