Desabastecimento nas drogarias atinge remédios essenciais e gera apreensão entre famílias; previsão das farmacêuticas é de regularização no primeiro semestre deste ano.
Pacientes com quadros graves, como doenças neurodegenerativas progressivas, têm sofrido para encontrar medicamentos em diversas farmácias pelo país. Entre as medicações em falta, estão Haldol, Neuleptil, Rivotril (clonazepam) e Amplictil (clorpromazina). Procuradas, as farmacêuticas responsáveis pelos remédios afirmam que a previsão de regularização do cenário ainda neste semestre.
Ao GLOBO, as redes de drogarias RD Saúde (Raia e Drogasil), Panvel e Pague Menos confirmaram que o abastecimento de fato está irregular, em especial do Haldol e do Neuleptil, devido ao fornecedor. Também procuradas, as drogarias Pacheco, São Paulo, Venâncio e Araújo não responderam.
Gilson de Farias, de 60 anos, é morador de São João da Barra, no Rio de Janeiro, e cuida da esposa, Rosenir, de 45, que sofre com doença de Huntington. A condição hereditária e neurodegenerativa não tem cura, e o Haldol é o único medicamento que conseguiu manter as crises de Rosenir sob controle.
No entanto, ele conta que procurou a medicação em diversas cidades do estado e não a encontrou. Pediu ajuda para uma sobrinha que mora no Rio Grande do Norte, mas que também não achou o medicamento. Gilson conseguiu apenas com um amigo que mora no Espírito Santo e com a cunhada, que mora em Santa Catarina. Mas foram poucas unidades, diz:
— A minha esposa não vive sem esse remédio. Ela está em um estágio avançado, não anda mais, não fala, mas tem muitas crises, se bate, se joga no chão. Esse remédio deu certo para mantê-las sob controle. O médico fica com receio de mudar e não dar certo porque nós sofremos muito antes de ela estabilizar. Agora fico com medo de esse remédio acabar, estamos sem saber o que fazer.
Assim como Rosenir, a falta tem afetado diversos pacientes com diagnósticos delicados que não podem ter a medicação interrompida, conta Mara Lúcia, farmacêutica do coletivo Sustenta Cannabis, que oferece acompanhamento para famílias que utilizam cannabis medicinal:
— Temos recebido muitos relatos de falta de diferentes partes do país há cerca de 15 dias, mas têm aumentado. Ficamos desesperados porque são pacientes que demoraram para conseguir um equilíbrio, uma maior qualidade de vida. E mesmo se fôssemos substituir os medicamentos, os pacientes passariam por um processo de adaptação que poderia ocorrer ou não, e com isso agravando até a doença da pessoa.
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