Sistemas de saúde para 2050: evento paralelo da 79ª Assembleia Mundial da Saúde debate soberania, evidências e novas respostas para um mundo em crise

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Em um cenário global marcado por crises simultâneas, mudanças climáticas, instabilidade econômica, avanço das doenças crônicas, envelhecimento populacional e transformação digital acelerada, o evento paralelo “Sistemas de saúde voltados para o futuro: caminhos nacionais até 2050” reuniu lideranças internacionais, pesquisadores, gestores e representantes da sociedade civil durante a 79ª Assembleia Mundial da Saúde.

Promovido pela Alliance for Health Policy and Systems Research, parceria sediada na Divisão de Ciências da Organização Mundial da Saúde — OMS, o encontro colocou no centro do debate uma questão urgente: como os países podem preparar seus sistemas de saúde para responder aos desafios das próximas décadas sem deixar ninguém para trás?

A iniciativa integra a agenda Health Systems 2050, voltada a analisar como as grandes tendências globais — as chamadas megatendências — poderão remodelar os sistemas de saúde e limitar ou ampliar o espaço de decisão dos países no futuro. Ao longo da reunião, os participantes defenderam que os sistemas de saúde não podem continuar presos apenas à resposta imediata às crises. É preciso antecipar cenários, planejar políticas de longo prazo e transformar evidências em ações concretas para proteger vidas.

A crise permanente exige sistemas de saúde mais preparados

Na abertura do evento, representantes da Aliança destacaram que os sistemas de saúde enfrentam uma realidade cada vez mais complexa. Surtos de doenças, choques econômicos, conflitos, degradação ambiental, desigualdades sociais e mudanças nos padrões epidemiológicos deixaram de ser eventos excepcionais. Tornaram-se parte de um novo normal.

A reflexão central apresentada foi que as escolhas políticas feitas hoje terão impacto direto sobre a capacidade dos países de proteger e melhorar a saúde de suas populações no futuro. O debate apontou que planejamento, financiamento, governança, atenção primária, força de trabalho, inovação tecnológica e soberania sanitária precisam ser tratados como dimensões integradas de uma mesma agenda.

Também foi defendida a necessidade de repensar a própria definição de sistema de saúde. Para os participantes, já não basta compreender saúde apenas como organização de serviços, hospitais, profissionais e financiamento. É necessário incluir os determinantes sociais, ambientais e comerciais da saúde, como renda, educação, alimentação, poluição, moradia, trabalho, clima e práticas de mercado que influenciam diretamente o adoecimento das populações.

Saúde precisa ser vista como investimento, não como custo

Um dos pontos mais fortes do debate foi a defesa de que a saúde deve ser compreendida como investimento estruturante para a vida, a democracia e o desenvolvimento dos países. Em vez de tratar os sistemas de saúde como despesa, os palestrantes destacaram que sistemas fortes são capazes de reduzir desigualdades, proteger populações vulnerabilizadas, organizar respostas a emergências e fortalecer a confiança social nas instituições públicas.

Essa visão dialoga diretamente com os desafios enfrentados por países que buscam fortalecer a atenção primária, ampliar a cobertura universal e reduzir a dependência de respostas fragmentadas. A mensagem do evento foi clara: sistemas de saúde resilientes não são construídos apenas em momentos de emergência. Eles dependem de decisões políticas consistentes, financiamento adequado, capacidade pública e participação social permanente.

Evidências que mudam políticas e chegam ao território

Os dados apresentados no Relatório Anual 2025 da Alliance for Health Policy and Systems Research demonstram a dimensão da atuação da organização. Segundo o material distribuído no evento, a Aliança apoiou 109 projetos, atuou em 41 países e territórios, publicou 30 artigos científicos, realizou 48 eventos e encontros técnicos, alcançou aproximadamente 93 mil citações acumuladas e registrou 25 matérias externas sobre suas iniciativas.

O relatório também destacou 31 instâncias de mudança documentadas por meio do seu “Impact Explorer”: 15 voltadas à informação de políticas públicas, 7 relacionadas à mudança de práticas, 3 à mudança de enquadramento do debate e 6 à construção de conexões institucionais.

Mais do que indicadores institucionais, esses números revelam uma aposta estratégica: aproximar pesquisa, decisão política e realidade dos serviços. A Aliança defende que a evidência científica precisa sair dos relatórios e chegar aos territórios, onde as pessoas vivem, adoecem e buscam cuidado.

Histórias de mudança mostram impacto real

Entre os exemplos apresentados, uma das experiências de maior destaque foi o projeto MAINSTREAM, voltado à pesquisa incorporada para imunização. A iniciativa contribuiu para elevar a adesão vacinal de 64% para 85% no distrito de Ebolowa, em Camarões. O trabalho envolveu 25 equipes de pesquisa atuando junto a programas de imunização em seis países, demonstrando que a produção de evidências em tempo real pode gerar melhorias concretas na prestação de serviços.

Outro exemplo veio da Índia, com o programa de navegadores de saúde tribal em Karnataka. A experiência, originada em uma pesquisa-ação participativa, tornou-se política estadual e passou a cobrir cinco distritos. Até dezembro de 2025, mais de 2.200 pacientes Adivasi haviam sido apoiados por navegadores de saúde. A iniciativa mostrou a importância de políticas sensíveis às barreiras culturais, territoriais e sociais enfrentadas por populações historicamente invisibilizadas.

O relatório também apresentou a experiência de Gana com a tributação de bebidas açucaradas. Pesquisas apoiadas pela Aliança sobre percepções públicas e de atores estratégicos contribuíram para subsidiar a adoção do imposto em 2023. O material aponta crescimento da arrecadação de GHC 735 milhões para GHC 1.326 milhões entre 2022 e 2023, reforçando o papel das evidências na formulação de políticas de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.

Essas histórias revelam que políticas públicas baseadas em evidências podem transformar práticas, reorganizar serviços e ampliar o acesso quando estão conectadas às necessidades reais das populações.

Soberania em saúde e financiamento no centro da discussão

A soberania sanitária apareceu como um dos temas mais relevantes do encontro. Representantes de diferentes países discutiram como reduzir a dependência de financiamento externo, fortalecer capacidades nacionais e regionais e proteger os sistemas de saúde diante de choques financeiros e instabilidades geopolíticas.

A Etiópia apresentou como prioridades o fortalecimento da atenção primária, a digitalização do sistema, a resiliência climática e a busca por maior autonomia na produção de insumos, especialmente por meio de cooperação regional. Gana destacou a necessidade de mobilizar recursos domésticos e reorganizar sua força de trabalho em saúde, diante de um cenário internacional de financiamento cada vez mais instável.

O debate mostrou que soberania em saúde não se limita à produção local de medicamentos, vacinas ou tecnologias. Ela depende de financiamento público sustentável, capacidade regulatória, infraestrutura, força de trabalho qualificada, pesquisa nacional, governança, cooperação regional e responsabilização dos tomadores de decisão.

A discussão também trouxe uma provocação importante: é difícil alcançar soberania sanitária em um sistema financeiro global que concentra riqueza e prioriza retorno ao investidor. Por isso, os participantes defenderam que saúde, financiamento e justiça econômica precisam ser debatidos de forma integrada.

Inteligência artificial e transformação digital: promessa e risco

A transformação digital e a inteligência artificial foram apontadas como dimensões inevitáveis do futuro dos sistemas de saúde. As tecnologias digitais podem acelerar diagnósticos, melhorar a análise de dados, apoiar a gestão de serviços, segmentar populações por risco e ampliar estratégias de prevenção.

No entanto, os palestrantes alertaram que essas ferramentas também carregam riscos. A inteligência artificial pode reproduzir desigualdades, ampliar vieses, concentrar poder tecnológico, fragilizar a proteção de dados e transformar profundamente o trabalho em saúde.

A mensagem do evento foi que a digitalização não deve ser tratada apenas como modernização tecnológica. Ela exige governança pública, regulação, ética, transparência e formação profissional adequada. A pergunta que atravessou o debate foi se a tecnologia será usada para ampliar o direito à saúde ou se poderá aprofundar desigualdades já existentes.

Também foi destacado que a força de trabalho em saúde precisa ser preparada para essa nova realidade. A formação de profissionais deverá incluir competências digitais, capacidade crítica para interpretar dados, compreensão ética da inteligência artificial e atuação interdisciplinar envolvendo clínicos, gestores, reguladores, economistas, pesquisadores e lideranças comunitárias.

Doenças crônicas, envelhecimento e prevenção

Outro eixo importante foi a prevenção das doenças crônicas não transmissíveis e a preparação dos sistemas de saúde para o envelhecimento populacional. Singapura apresentou uma visão baseada em planejamento de longo prazo, regulação e prevenção, ao mesmo tempo em que reconheceu os desafios impostos pelo rápido envelhecimento da população, que aumenta custos e reduz a disponibilidade da força de trabalho.

A Nova Zelândia trouxe preocupações relacionadas à vulnerabilidade da infraestrutura de saúde diante das mudanças climáticas e às alterações nos padrões de adoecimento, incluindo o risco de expansão de doenças transmitidas por vetores para novas regiões.

Essas falas reforçaram que os sistemas de saúde não podem atuar apenas quando a doença já está instalada. É preciso fortalecer políticas de prevenção, promoção da saúde, vigilância, atenção primária e enfrentamento dos determinantes sociais e ambientais que produzem adoecimento.

Estratégia 2024–2028 da Aliança aponta sete áreas de ação

O material apresentado no evento também destacou a estratégia 2024–2028 da Aliança, organizada em áreas voltadas ao fortalecimento de sistemas de saúde. Entre os eixos estão a transformação dos sistemas para alcançar a cobertura universal por meio da atenção primária, o uso da transformação digital para melhorar a saúde, a prevenção de doenças não transmissíveis, a resiliência dos sistemas diante das mudanças climáticas, a preparação para emergências, o fortalecimento de ecossistemas nacionais e regionais de conhecimento e o engajamento estratégico em temas como Health Systems 2050 e inteligência artificial.

Na área de emergências, o relatório destacou pesquisas em contextos de conflito, como Somália, Ucrânia e Iêmen, com foco em financiamento, governança e prestação de serviços em ambientes frágeis. Também foi mencionada a expansão da rede KNOSA da África Oriental para a África Ocidental, envolvendo países como Benin, Burkina Faso, Guiné e Mali.

Essas iniciativas demonstram que a preparação para o futuro exige olhar sistêmico. Saúde, clima, conflitos, financiamento, tecnologia, conhecimento e participação social estão cada vez mais interligados.

O futuro dos sistemas de saúde começa agora

Ao final do encontro, a mensagem deixada foi urgente e profundamente política: o futuro dos sistemas de saúde não será construído apenas em 2050. Ele está sendo definido agora, nas escolhas que os países fazem sobre financiamento, prevenção, tecnologia, soberania, força de trabalho, equidade, participação social e produção de evidências.

A iniciativa Health Systems 2050 propõe exatamente esse deslocamento: sair da reação permanente às crises para uma postura de planejamento, antecipação e responsabilidade pública. Em um mundo de incertezas, os sistemas de saúde precisam estar preparados não apenas para tratar doenças, mas para proteger a vida em sua integralidade.

Participação do Conselho Nacional de Saúde

A cobertura deste evento paralelo da 79ª Assembleia Mundial da Saúde contou com a presença de representantes vinculados à trajetória do controle social brasileiro. O Conselho Nacional de Saúde — CNS esteve representado pelas conselheiras nacionais de saúde Ana Lúcia Paduello, da Superando o Lúpus, e Priscila Torres, da Biored Brasil, além da participação de Fernando Pigatto, ex-presidente do CNS.

A presença dessas lideranças reforça a importância da participação social brasileira nos espaços internacionais de debate sobre o futuro dos sistemas de saúde. Ao acompanhar discussões sobre soberania, financiamento, evidências, atenção primária, tecnologia, doenças crônicas, clima e equidade, o controle social brasileiro reafirma que as decisões globais em saúde precisam dialogar com a vida real das pessoas, com os territórios e com os sistemas públicos que sustentam o direito à saúde.


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