Como manejar doenças imunomediadas durante a gestação e o aleitamento?

Priscila Torres
5 Leitura mínima

Uma vez controlada a doença, os cuidados não se resumem a uma única conversa sobre o tratamento, mas se estendem por uma série de decisões: antes da concepção, em cada trimestre, no parto, durante o aleitamento… todas baseadas em evidências distintas, às vezes sólidas, às vezes ainda precárias.

As diferentes especialidades envolvidas nem sempre interpretam esses dados da mesma forma, e aprender a lidar com essa divergência, em vez de esperar que ela se resolva, constitui grande parte do trabalho clínico real nessa área.

Recomendações, por vezes, contraditórias

Existem alguns casos paradigmáticos, nos quais a recomendação é unânime. É o caso do certolizumabe, que quase não atravessa a placenta e é, portanto, o medicamento biológico de escolha durante toda a gestação para artrite reumatoide, doença de Crohn e psoríase, embora seu uso tenha diminuído nos últimos anos devido ao surgimento de novos alvos terapêuticos. [1,2,3]

O mesmo ocorre, embora no sentido contrário, com o metotrexato, o micofenolato, a leflunomida, a ciclofosfamida ou a talidomida, cuja teratogenicidade é conhecida, razão pela qual devem ser suspensos antes de se tentar engravidar. [1,4]

No entanto, as evidências não são tão sólidas em relação aos demais tratamentos utilizados, e essa incerteza acaba se refletindo na conduta clínica: os gastroenterologistas recomendam, com reservas, a manutenção tanto do vedolizumabe (anti-integrina α4β7) quanto do ustekinumabe (anti-interleucina 12 e 23) durante a gestação, enquanto os reumatologistas, ao contrário, tendem a propor a suspensão de todos os medicamentos biológicos que não sejam direcionados contra o fator de necrose tumoral, desde que o quadro clínico permita. [1,2]

Não se trata tanto de um conflito de evidências, mas de diferenças na abordagem e no nível de risco que as diferentes sociedades científicas estão dispostas a assumir.

Decisões que se estendem além do parto

O calendário acrescenta mais uma variável a ser levada em conta. Manter um medicamento biológico antifator de necrose tumoral no terceiro trimestre, quando o fármaco atravessa a placenta com mais facilidade, obriga a adiar por seis meses as vacinas com vírus vivos no bebê exposto. Mesmo assim, é cada vez mais comum continuar esses tratamentos, com o objetivo de evitar uma possível reativação. [5]

fundamentalmente, em seu tamanho molecular e no fato de que eles são degradados no trato digestório do lactente, e não tanto em dados baseados nas concentrações medidas no leite ou no sangue do bebê.

Os dados do registro Pregnancy in IBD and Neonatal Outcomes (PIANO) demonstraram que, quando se associa um medicamento biológico com um imunomodulador, ocorre um aumento das infecções no primeiro ano de vida do lactente, sem que se possa descartar que a própria gravidade da doença materna possa explicar parte desse achado. [6]

Com os medicamentos mais recentes — inibidores da Janus quinase, moduladores do receptor de esfingosina 1-fosfato, inibidores da interleucina 23 — ocorre algo semelhante: as recomendações ainda se baseiam em estudos farmacocinéticos e em modelos animais, sem que haja, até o momento, estudos sistemáticos em humanos. [2]

A decisão compartilhada como resposta à incerteza

É conveniente, portanto, adotar um modelo de tomada de decisão compartilhada, já que essa é a única resposta clínica razoável diante do volume de incertezas. Além disso, é importante revisar essas decisões em cada etapa, e não apenas antes da concepção, avaliando a atividade da doença e o risco de crise caso haja mudança no tratamento.

Também é fundamental distinguir o que sabemos do que simplesmente ainda não foi estudado, bem como ponderar os danos conhecidos de uma doença mal controlada em relação ao risco — às vezes apenas teórico — decorrente de um medicamento, planejando como retomar o tratamento e conciliá-lo com a amamentação. [1,7]

Assim como em muitos outros desafios da medicina, lidar com uma doença imunomediada no contexto da gestação requer a avaliação de alternativas que não estão isentas de risco, embora possa haver margem suficiente para adotar estratégias fundamentadas e passíveis de revisão.

Os conflitos de interesses dos autores dos artigos podem ser consultados nos textos originais.

Este conteúdo foi traduzido de Univadis Espanha – Medscape Professional Network 

Fonte: medscape.


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